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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Guerras e ginetes. (I)

O caso de cavaleiros modestos que vão servir as mesnadas de vários senhores castelhanos é mais frequente. É aí que muitas vezes encontram a morte. Assim aconteceu com Estevão Soares de Barbudo, morto em 1286 na lide de Alfaiates contra Sancho IV de Castela, ao serviço de João Nunes de Lara; com Fernão Fernandes Cogominho, que combatia nas tropas do mesmo senhor e que morreu em Chinchila, em 1290, em combate contra Estevão Rodrigues de Castro; com Gonçalo Anes de Lima, que perdeu a vida numa batalha contra os Mouros junto a Granada, em 1280; com Gonçalo Gonçalves Mourão e seus irmãos Lourenço e João, que pereceram também em combate contra os Mouros, mas em Tarifa, em 1292; com Gonçalo Martins de Nomães, que foi alferes do infante Henrique de Castela e o acompanhou à Lombardia, de onde não voltou depois da batalha de Benevento em 1266 ou da de Tagliacozzo em 1268; com Lopo Lopes Gato, que se ficou em Jerez de los Caballeros por altura da revolta mourisca de 1265; com Vasco Martins Pimentel que, em Córdova, foi vítima dos combates entre Afonso X e o infante D. Sancho. Mas nem todos deixavam os seus corpos nos campos de batalha, apesar de também prestarem serviços como cavaleiros, pois regressaram a Portugal, onde, por vezes, conseguiram algum sucesso, como aconteceu com João Simão de Urrô, que foi meirinho-mor de D. Dinis, depois de na sua juventude ter vivido em Castela ao serviço da família Lara; outros, enfim, chegaram a alcançar posições de grande prestígio, mas nem por isso abandonaram a vida militar, como Gonçalo Anes de Aguiar, o Velho, que tinha estado nas campanhas de Múrcia e Sevilha, e que acabou por morrer às mãos dos Mouros em Granada em 1280.
[José Mattoso, A nobreza medieval portuguesa no contexto peninsular, Naquele Tempo, Ensaios de História Medieval, Vol. 1, p. 332.]

Até breve.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Expedição de Afonso IX de Leão e de Sancho II de Portugal além-Tejo. (I)

A exactamente contemporânea Crónica Latina dos Reis de Castela, redigida por um autor que conheceu bem os sucessos, dá-nos uma medida do tempo que decorreu entre a celebração do acordo leonês/português e a expedição dos dois reis ao além-Tejo: a propósito do «pacto firmado entre eles», diz ter ocorrido «multis deibus ante», «muitos dias antes» (1), o que apontaria para a primeira metade de 1226, ou, na melhor das hipóteses, para finais de 1225. Uma data consentânea com a cronologia das operações de Afonso IX, que, até aí incapaz de mobilizar o reino de Portugal para uma participação mais directa nas suas investidas meridionais, porventura por causa da trégua com os almohadas, teria chegado a conseguir finalmente um acerto no Inverno de 1226 para a Primavera seguinte.
[Hermenegildo Fernandes, D. Sancho II, pp. 138-139.]

Nota do Autor:

(1). — Chronica Latina, 1997, parág. 50, p. 95.


Até breve.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Fronteira entre Tejo e Guadalquivir. (III)

Do lado cristão, esses guerreiros são também compostos por efectivos permanentes das Ordens Militares, sempre pouco numerosos mas extremamente tenazes e profissionais, no duplo sentido do conhecimento da arte da guerra e da profissão na fé. Uma combinação destes elementos havia mantido Évora nas mãos cristãs desde 1165, praticamente isolada desde as grandes e bem sucedidas incursões almohadas dos anos 80. Neste primeiro tempo de Sancho [II] um cordão de castelos garantira já, de forma bastante larga e difusa, uma presença portuguesa desde o Atlântico até à serra de São Mamede, numa linha de desenho longitudinal: Alcácer do Sal, a velha Qasr Abī Dānis; Montemor-o-Novo, já relativamente consolidada no dobrar da centúria; Évora e depois numa inflexão súbita devida à presença ameaçadora de Badajoz e de Elvas, o seu posto avançado para ocidente, muito a norte, ou, mais precisamente, a nordeste, Marvão, o ninho de águias que muitos séculos antes, durante as fricções internas do século IX andaluz, esse outro grande homem de fronteira que fora Ibn Marwan, fizera seu, em detrimento da Amaia antiga, no vale.
[Hermenegildo Fernandes, D. Sancho II, p. 137.]

Até breve.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fronteira entre Tejo e Guadalquivir. (II)

Um ambiente pouco propício para reis, mais adequado aos rudes homens da fronteira filhos de uma aprendizagem secular, esses mesmos a quem os califas almohadas entregavam a guerra quotidiana ou ouviam aquando das suas gigantescas incursões organizadas, por disporem de um conhecimento especializado inacessível aos não iniciados. Entre eles alguns como a grande família dos Banū Wāzir, originária de Beja — tão importante no Gharb al-Andalus como os Sousões o eram no Norte senhorial — transmitem esse conhecimento na linhagem, numa linha contínua que vai daquele que é ao mesmo tempo da conquista de Lisboa e Santarém o rei verdadeiro de todo o Gharb interior, Sidray Ibn Wāzir, até ao alcaide de Alcácer derrotado em 1217, aquele mesmo que encenou uma pseudoconversão ao cristianismo apenas para depois se escapar.
[Hermenegildo Fernandes, D. Sancho II, p. 137.]
Até breve.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Fronteira entre Tejo e Guadalquivir. (I)

A fronteira entre Portugal e Leão e o al-Andalus almohada era então o que sempre fora, uma marca. Aí, grupos de guerreiros que faziam dos combates um modo de vida controlavam extensas áreas de território onde os tradicionais usos agrícolas e pastoral do espaço se tinham progressivamente desgastado em proveito de uma economia assente no saque e que, com frequência, ia buscar o seu sustento às ricas áreas de retaguarda que tinham sofrido menos directamente os desastres da guerra. O baixo vale do Tejo, de um lado, a ubérrima planície do Guadalquivir, o próprio centro do al-Andalus, do outro, eram objectos de raides. Nesse vasto espaço vazio intermédio, vazio de uma organização territorial estável mas não de homens, a paisagem era pontuada por castelos que mudavam frequentes vezes de mão, tomados por um lado para logo serem abandonados ou reconquistados pelo outro.
[Hermenegildo Fernandes, D. Sancho II, p. 137, Círculo de Leitores, Lisboa, 2006.]

Até breve.