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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Navas de Tolosa. A acção portuguesa.

Mouros preparados para o combate

Assim, rapidamente contada ou descrita, tenha-se noção — muito ligeira — da acção do contingente português enviado pelo monarca Afonso II, ao rei Afonso VIII de Castela, tanto quanto o seu papel no desenrolar da refrega. Que existiu esta presença, apesar de não muito numerosa, e dos manuais publicados pelos estudiosos estrangeiros da batalha — espanhóis e outros — muito raramente o referirem, não podem haver omissões deste género, porque são crassas e selectivas, já para não dizer impróprias de quem realmente estuda e publica o que investiga. Vejamos o que nos diz o nosso narrador:

Em 1212 expirava a trégua de um lustro que o rei de Castela tivera de negociar com o almohada, ao tempo da batalha de Alarcos. Belicoso e decidido a exterminar o poderio muçulmano, Afonso VIII não temia a empresa, não obstante saber considerável a organização guerreira do sarraceno e inextinguível o material humano que ele podia transportar do Magreb com o auxílio da sua numerosa esquadra. Havia a ponderar, contudo, as dissenções entre os reinos cristãos e, especialmente, as manobras dúbias a que se entregava o rei de Leão, hostil a Portugal e feito com o miramolim.
De qualquer forma, o de Castela entendia vingar o desastre de Alarcos. Então, subitamente inspirado, envia mensageiros aos príncipes cristãos da península e de além Pirinéus, conseguindo que o papa acordasse ao movimento a feição de Cruzada. E seguro do concurso universal, mais uma vez Afonso VIII desafia o almohada, Mohamed Anasir, que reúne, a seu turno, forças consideráveis que já tinha no Andaluz e manda pregar a guerra santa até aos recônditos confins do seu império africano.
Logo que as tropas aliadas da Península e as legiões estrangeiras fizeram concentração, é ordenado o avanço. E apesar da resistência e dos obstáculos que os sarracenos opuseram, os cristãos entram vitoriosamente em Calatrava. Era um bom triunfo. Os estrangeiros, porém, como tantas vezes aconteceu em liças de cruzados, abandonaram o campo sob pretexto de não poderem suportar o calor. Não houve súplicas bastante eloquentes para os demover, nem lhes importou a ameaça que para a cristandade representava a circunstância de se ter provocado o exército muçulmano e não mostrar coesão para o enfrentar. Ficou assim reservado o choque brutal às forças peninsulares — mas também lhes coube, sem partilha, o que Menéndez y Pelayo entende ser «a maior vitória lograda pela cristandade após a de Carlos Martel em poitiers».
Essa vitória foi a de Navas de Tolosa, obtida em 16 de Julho de 1212, após quatro diasa de soalheira abrasadora, durante os quais nem uma ligeira brisa agita o estandarte de Cristo e o fanal do Islão. Dela comparticiparam os portugueses, que se fizeram notar pela bravura na peleja e coragem para suportar os rudes sofrimentos da canícula e privações. Do que foi o resultado, a princípio duvidoso tal a esmagadora potência do exército muçulmano, diz bem o epíteto de que se servem os cronistas agarenos ao referir a tremenda batalha: a da desventura. O desbarato foi completo. Mohamed Anasir teve de romper caminho entre montões de cadáveres, para fugir numa égua veloz que lhe emprestou um dedicado servidor, encontrando ainda um grupo de negros que lhe auxiliou a retirada. E enquanto os cristãos prosseguem triunfantes na reconquista, o almohada regressa a Marrocos, entrega as rédeas do Estado ao filho e procura na embriaguez alíviopara o sofrimento moral, até que o envenenam e morre
. [Eduardo Dias, Árabes e Muçulmanos, Tomo II, A invasão da Hispânia e o aspecto cultural do Islamismo, pp. 138-140, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1940.]

Até breve.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A batalha por Alcácer do Sal.

Gostava que lessem esta passagem de Alexandre Herculano e a saboreassem como imagem nua e crua do que se teria passado na campanha que levou à conquista de Alcácer do Sal, depois de um assédio começado a 30 de Julho e finalizado a 18 de Outubro daquele ano de 1217.

Havia quase mês e meio que Alcácer estava sitiada. A vinda das tropas do Andaluz fora a 10 de Setembro, e os auxiliares cristãos haviam chegado ao campo, como dissemos, nessa mesma noite. Na madrugada do dia 11 os trezentos cavaleiros que desde o princípio tinham assistido ao assédio saíram como exploradores e aproximaram-se dos arraiais muçulmanos. Observaram tudo. Por uma grande distância o solo desaparecera coberto da multidão de infiéis. Perceberam estes a cavalaria que os atalaiava e, alevantando o clamor do combate, correram a persegui-la. Esperaram-nos a pé firme os valentes homens de armas, e ali mesmo se travou uma brava escaramuça. Não podia ser duvidoso o resultado: eram um contra cem. Os cavaleiros portugueses foram obrigados a recuar. Lançando os escudos às costas para se ampararem dos golpes e tiros dos sarracenos, vieram à rédea solta precipitar-se no acampamento, perseguidos pelo exército inimigo, que imediatamente marchara. Entretanto os quinhentos cavaleiros chegados nessa noite montavam a cavalo e, vendo aproximar-se os sarracenos, prepararam-se para romper a batalha. Deviam ser na maior parte templários, porque esta Ordem era, talvez, a mais numerosa de todas e porque debaixo do mando do Mestre dos três reinos da Espanha, Pedro Alvites, aí se achavam reunidos aos freires de Portugal muitos de Leão e Castela. A severa disciplina da Ordem, as solenidades com que entravam nas batalhas produziam necessariamente o entusiasmo nesses ânimos, em geral esforçados, e naqueles que os viam a seu lado. Os esquadrões do Templo ao formarem-se para a batalha guardavam profundo silêncio, que só era cortado pelo ciciar do balsão bicolor (negro e branco) que os guiava despregado ao vento e dos longos e alvos mantos dos cavaleiros que se agitavam. À voz do Mestre, um trombeta dava o sinal do combate, e os freires, erguendo os olhos ao céu, entoavam o hino de David: Não a nós, Senhor, não a nós! mas dá glória ao teu nome! — Então, abaixando as lanças e esporeando os ginetes, arrojavam-se ao inimigo, como a tempestade, envoltos em turbilhões de pó. Primeiros no ferir eram os últimos em retirar-se quando assim lho ordenavam. Desprezando os combates singulares, preferiam acometer as colunas cerradas, e para eles não havia recuar: ou as dispersavam ou morriam. A morte era, de feito, mais bela para o templário que a vida comprada com a covardia. Bastava que não atingisse ao tipo de valor humano, como os velhos guerreiros da Ordem o concebiam, para ser punido por fraco. A cruz vermelha, distintivo da corporação, com o manto branco sobre que estava bordada tiravam-se-lhe ignominiosamente, e ele ficava separado dos seus irmãos como um empestado. Obrigavam-no a comer sobre o chão nu: não lhe era lícito o desforço das injúrias e nem sequer castigar um cão que o maltratasse. Só depois de um ano, se o capítulo julgava a culpa expiada, o desgraçado cingia de novo o cíngulo militar para ir, talvez, na primeira batalha afogar no próprio sangue a memória de um ano de afrontas e de suplício.
Qual seria o estado intelectual de homens habituados à exageração de tal disciplina fácil é de imaginar. As outras Ordens imitavam, mais ou menos, os templários; dominavam-nas as mesmas ideias, o mesmo entusiasmo ardente, e tanto mais ardente quanto mais as instituições que as regiam recalcavam todas as tendências suaves do coração debaixo de fórmulas severas e tristes. No acampamento junto a Alcácer os freires das três Ordens rivais — Templo, Hospital e Santiago — achavam-se reunidos: tinham de ser julgados uns pelos outros; tinham de se julgar mutuamente; e nunca mais oportuna ocasião se lhes oferecera de vencer com glória ou de perecer nobremente. Estavam, segundo parece, já além do rio: a febre dos combates exaltava os ânimos até ao delírio, e ao erguerem os olhos ao céu para a invocação da partida afigurou-se-lhes ver na imensidão do espaço, a uns, uma cruz brilhante, a qual ofuscava as estrelas que se imergiam no alvor da manhã, a outros, um estandarte em que a mesma cruz se desenhava. Não havia que duvidar da vitória: era Deus que a anunciava
A situação do campo de batalha, a hora a que ela rompia, a marcha desordenada do exército sarraceno, a crença dos cavaleiros cristãos no auxílio celeste, sentimento assaz enérgico para lhes mostrar no espaço uma cruz resplandecente, tudo os favorecia. Defronte de Alcácer, transpondo o Sado para o ocidente, estende-se uma vasta campina, campina funesta, onde, como em outros lugares, os vindouros terão de erguer um altar de expiação ao sangue português aí vertido por mãos portuguesas quando o silêncio da morte tiver pousado sobre nós, e Deus e a história houverem pesado e condenado os nossos deploráveis ódios civis. Foi nessas planícies, segundo todas as probabilidades, que sarracenos e cristãos se encontraram. Os cruzados do Norte tinham ficado impedindo alguma surtida dos sitiados, e à multidão dos infiéis só o opor os freires militares, os cavaleiros leoneses que vieram associar-se à glória ou aos desastres daquela jornada e os homens de armas e peões de Portugal. Mas uma imprevista circunstância favoreceu estes: o Sol nascia, e os cristãos ocupavam o lado setentrional da campina e os montes que, a bem curta distância da margem esquerda do rio, se prolongam ao noroeste. O reflexo metálico das armas e armaduras ia bater nos olhos dos infiéis e dava ao pequeno exército português uma aparência que lhe acrescentava dimensões. Ou fosse efeito do mesmo reflexo dos ferros polidos e dos dourados escudos que multiplicavam a torrente da luz oriental ou fosse o excitamento religioso, capaz de alucinar ainda outra vez os espíritos, os combatentes, ao travarem-se com os muçulmanos, creram ver no ar um tropel de cavaleiros vestidos como os templários que também feriam nos inimigos. Foi terrível o embate. O comendador de Palmela, Martinho, homem pequeno de corpo, mas animoso como um leão, abaixando a cabeça, com o escudo embaraçado na esquerda e na direita o estandarte da ordem, arroja-se ao meio dos esquadrões sarracenos: Pedro Alvites, o Mestre do Templo, leva a mesma dianteira, e os respectivos freires seguem o exemplo dos seus chefes. Os cavalos batem de peitos uns nos outros, as espadas faíscam nas espadas, os escudos retinam contra os escudos, e os elmos e cervilheiras rolam pelo chão rotos e abolados, Os muçulmanos titubeiam: por entre as nuvens de pó confundem-se amigos e inimigos, e uma completa anarquia se derrama pelas fileiras sarracenas, já forçosamente desordenadas pela rápida e dilatada marcha que tinham trazido perseguindo os exploradores. No meio da confusão, aquela numerosa cavalaria chegou a combater uma contra a outra, enquanto os cavaleiros cristãos, por isso mesmo que eram poucos, estavam livres de cair em igual erro. Em breve o desbarato das tropas andaluzas se tornou inevitável: possuídos de terror começaram a fugir, e parte dos fugitivos foram precipitar-se no Sado. Abafados debaixo dos pés dos ginetes e, até, dos troços da infantaria, muitos expiraram sem haver combatido. Perseguidos por espaço de dez milhas pelos cristãos, três dias durou a carnificina, e dois walis, o de Córdova e o de Jaen, ficaram entre os mortos. O cálculo que destes se fez montava de catorze a quinze mil, afora um sem-número de prisioneiros, os quais, ou para lisonjearem seus senhores ou para se desculparem perante a própria consciência de tão vergonhosa derrota, ouvindo falar do auxílio dado aos cristãos pelos cavaleiros aéreos, asseveraram tê-los igualmente visto e experimentado a sua fúria, o que não podia deixar de fortalecer a fé viva da soldadesca na decisiva protecção divina. Entretanto, uma armada de trinta galés que os sarracenos tinham mandado para a foz do Sado, acometida por horrorosa borrasca, lutava debalde com os elementos e era destruída sem combate. Saindo ao encontro dela, a frota cristã só achou ante si as solidões do oceano: as galés inimigas tinham ido a pique ou dado à costa. Ainda em tempos de mais luz tanta fortuna legitimaria a crença no favor celeste, quanto mais numa época em que a credulidade fazia sempre intervir o omnipotente nestes cruéis dramas da matança e de estragos
.

[História de Portugal, Desde o começo da monarquia até o fim do reinado de Afonso III, Tomo II, Livro IV, pp. 262-268 — notas críticas de José Mattoso. Verificação do texto por Ayala Monteiro — Livraria Bertrand, Lisboa, 1981.]

Até breve.