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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Eventos cronísticos. (I)

Monge cronista.

Um último tipo cronístico de eventos religiosos urbanos diz respeito às notícias sobre a celebração citadina de assembleias eclesiásticas participadas por religiosos oriundos de próximas e distantes áreas da Cristandade. Nas fontes em análise, essa memória urbana regista-se a propósito das cidades citadas enquanto sedes de antigos concílios ecuménicos. Situadas em regiões cuja relativa centralidade geográfica e proximidade em relação à corte papal facilitavam a deslocação local de clérigos, bispos e embaixadores provenientes de províncias eclesiásticas bastante afastadas entre si, elas correspondem a núcleos urbanos servidos por boas redes de comunicações e bem dotadas de infra-estruturas capazes de responder às necessidades de abastecimento e alojamento de uma numerosa e exigente população visitante.
[Maria Sofia Marques Condessa, A memória das cidades dos séculos XII a XIV, nas crónicas de Rui de Pina e Duarte Galvão, p. 137.]

Até breve.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Duarte Galvão. (II)

Neste sentido, tal como Pina, também Galvão foi um letrado cortesão. Nascido em Évora, no seio de uma linhagem fidalga onde se conta um bispo e, depois, arcebispo eborense, o seu irmão João Galvão, Duarte protagonizou uma idêntica longa carreira administrativa e diplomática nas cortes de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, antes e após este último rei lhe ter solicitado a redacção da crónica do fundador da monarquia lusa (1). Ora, para um tal letrado, ligado a várias missões políticas relacionadas com as negociações destinadas à obtenção de apoios exteriores ao projecto manuelino de retomar a cruzada contra o Islão, a narrativa dos tempos de D. Afonso I foi naturalmente desenvolvida no quadro da procura de uma legitimação histórica para o poder e o carisma atribuídos à realeza portuguesa, sendo, portanto, evocada a época do primeiro dos seus soberanos como providencial e messiânico prenúncio de um império capaz de levar à final vitória contra os infiéis.
[Maria Sofia Marques Condessa, A memória das cidades dos séculos XII a XIV, nas crónicas de Rui de Pina e Duarte Galvão, p. 19.]

Nota da autora:

(1). — Nascido em 1445, Duarte Galvão foi secretário, conselheiro e notário dos monarcas D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, tendo protagonizado ao seu serviço várias missões diplomáticas a Barcelona, Flandres e Roma, acabando, aliás, por vir a falecer em 1515, durante uma viagem que o rei venturoso o encarregara de fazer à corte do Preste João. (…) [Ibidem, nota 36.]
Até breve.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Duarte Galvão. (I)

De resto, a Crónica de D. Afonso Henriques de Duarte Galvão também se insere nesta mesma visão providencialista da história e do destino dos reis e do reino luso. Permanecendo ainda hoje em aberto a questão da precedência ou da sequência deste texto em relação aos que Rui de Pina dedicou aos reinados posteriores, assim como a modalidade a que obedeceu a sua encomenda por parte do rei D. Manuel I (1), a crónica de Galvão não deixa de corresponder a um projecto historiográfico paralelo ou complementar aos que se ficaram a dever ao cronista-mor do reino.
[Maria Sofia Marques Condessa, A memória das cidades dos séculos XII a XIV, nas crónicas de Rui de Pina e Duarte Galvão, p. 19.]

Nota da autora:

(1). — Consulte-se a síntese de José Mattoso, “Duarte Galvão” in Dicionário de Literatura Medieval Galega e Portuguesa, ed. cit., 225-226. Segundo Lindley Cintra [Sobre o códice Alcobacense 290 (antigo 316) da Biblioteca Nacional de Lisboa, Separata do Boletim de Filologia, XXIII, 1974, 255-275], todas as cópias “solenes” da crónica de Galvão remeteriam para um códice que resultara de um texto emendado por Rui de Pina ou por alguém a seu mando, devendo o original da crónica de D. Afonso Henriques ser anterior a 1490, a data em que Pina começou o seu labor historiográfico, pelo que a data de 1505 que figura no prólogo hoje conhecido como indicativa do momento do começo da crónica poder-se-á interpretar como a dos inícios da refundição da obra de Galvão às ordens do então cronista-mor do reino. De acordo com Veríssimo Serrão (A Historiografia Portuguesa…, 126-136), o manuscrito em questão teria sido copiado e corrigido a mando de Pina na sua condição de cronista-mor a quem competiria supervisionar os textos dos cronistas-menores, devendo ser essa a condição de Galvão. Seja como for, como reconhece Mattoso, permanecem em aberto as seguintes questões: “Seria o texto redigido antes de 1490, e a data de 1505 da mão de Pina e não da de Galvão? Quando é que Galvão foi encarregado por D. Manuel de escrever as crónicas do reino?” [Ibidem, nota 35.]
Até breve.

domingo, 18 de outubro de 2009

O cronista Cristóvão Acenheiro.

Podemos dizer que a historiografia medieval se conclui com Cristovão Acenheiro. Apesar de a sua Crónica dos Reis de Portugal ter sido produzida em 1535 e inaugurar, da alguma maneira, a historiografia moderna portuguesa, este cronista limita-se a compilar e sumariar, sem grande espírito crítico, informações recolhidas nas crónicas medievais, sendo largamente devedor da Crónica de Portugal de 1419 (…).
[Leontina Ventura, Introdução, D. Afonso III, p. 19.]
Até breve.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Rui de Pina. (II)

No que respeita às narrativas dos reinados dos soberanos da primeira dinastia, de D. Sancho I a D. Afonso IV, Rui de Pina baseou-se, no entanto, nos textos da Crónica de 1419, dela também seguindo, implicitamente, o respectivo projecto de revisão do sentido de atribuir aos primórdios do passado luso. Com efeito, tal como o fizera essa crónica, Rui de Pina acabou por reproduzir e fixar uma história do reino autónoma de visíveis e concretas referências a qualquer subordinação política face ao passado da monarquia leonesa, tal como ainda era bem visível na Crónica Geral de Espanha de 1344 e na sua refundição de 1400. Para além disso, seguindo ainda a Crónica de 1419, Rui de Pina também dela adoptou a concepção de um passado luso onde se expressava e confluía o carácter providencialista que a literatura genealógica portuguesa de Trezentos atribuíra à nobreza portuguesa, transferindo para a história dos primeiros monarcas do reino as manifestações dos valores e dos poderes que tinham supostamente feito da fidalguia de Portugal a considerada elite e vanguarda da messiânica cavalaria hispânica, sendo ela vista como a melhor e mais transcendental cavalaria da história da Cristandade.
[Maria Sofia Marques Condessa, A memória das cidades dos séculos XII a XIV, nas crónicas de Rui de Pina e Duarte Galvão, pp. 18-19.]

Até breve.

sábado, 29 de agosto de 2009

Rui de Pina. (I)

Rui de Pina e Duarte Galvão não deixaram, no entanto, de veicular nas suas crónicas dos monarcas da dinastia de Borgonha um olhar condicionado pelo favor e pelo interesse da realeza, a quem serviram e por quem foram protegidos. O primeiro, originário da cidade da Guarda e pertencente a uma família da pequena nobreza que contara com vários membros ao serviço da coroa, desempenhou várias funções administrativas e diplomáticas na casa e na corte de D. João II, antes de se dedicar à escrita da história dos reis de Portugal e, em 1497, ter sido nomeado, pelo monarca D. Manuel I, cronista-mor do reino e guarda-mor da Torre do Tombo, enquanto o seu irmão, Fernão Pina, pela mesma época, levava a cabo no arquivo régio a chamada “Retoma dos Forais”. Tendo iniciado um projecto de selecção e cópia dos antigos documentos da chancelaria, da qual resultou o começo da composição dos códices designados da “Leitura Nova”, Rui de Pina teve então acesso, para além dos textos redigidos pelos anteriores cronistas oficiais, ao conhecimento e à consulta da vasta documentação existente no arquivo da coroa, utilizando-a e reproduzindo-a sobretudo na feitura das crónicas dos monarcas D. Duarte, D. Afonso V e D. João II, de acordo com um labor historiográfico de onde resultaram várias mercês e recompensas régias (1).
[Maria Sofia Marques Condessa, A memória das cidades dos séculos XII a XIV, nas crónicas de Rui de Pina e Duarte Galvão, p. 18, Patrimonia Historica, Cascais, 2001.]

Nota da autora:

(1). — Nascido cerca de 1440, Rui de Pina ingressou muito jovem na casa de D. João II, ainda em vida de D. Afonso V, nela exercendo funções de escrivão e de notário. Com a subida ao trono do seu senhor, em 1481, foram-lhe confiadas missões diplomáticas a Castela e a Roma, depressa se tornando num importante privado do monarca de quem abrirá e lerá o respectivo testamento em 1494. Tendo, entretanto, desde 1490, começado um labor de cronista que será reconhecido, em 1497, com a nomeação, pelo rei D. Manuel I, para o cargo de cronista-mor do reino e guarda-mor da Torre do Tombo, neles acabará por ser sucedido, à sua morte, em 1528, por um dos filhos, Fernão Pina. [Ibidem, nota 31.]

Até breve.