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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Imperator totius Hispaniae.

Afonso VI, de Leão e Castela.
[Imagem do século XII existente na Catedral de Santiago de Compostela.]

A adopção, pela chancelaria de Afonso VI, logo a seguir à tomada de Toledo, do título de imperator totius Hispaniae, indica bem o papel que o rei de Leão e Castela entendia desempenhar. Reivindicando o imperium, ou poder supremo, o rei de Toledo deixava aos outros príncipes do regnum o cuidado de «reger» e de administrar os seus principados no quadro de uma hierarquia política. A adopção do título de «imperador» por Afonso VI (1072-1109) e por seu neto Afonso VII (1126-1157) apenas indica o seu programa político em Espanha, e não qualquer reivindicação perante o rei dos Romanos. «Este título — escrevia Isidoro de Sevilha, nas suas Etimologias —, distingue-o dos reis dos outros povos.»
O título não era só simbólico, e os reis que o reivindicavam pretenderam exercer efectivamente esse
imperium sobre todo o território ibérico.
[Adeline Rucquoi, História Medieval da Península Ibérica, pp. 172-173.]

Até breve.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Reinício da unificação cristã em Espanha.

Afonso VI de Leão e Castela pôde assim aparecer como o único herdeiro dos reis visigodos, e a tomada de Toledo, como o golpe de «restauração» da Espanha pela reconquista militar do seu território. O mito da Hispânia unificada e cristão parecia ir-se realizar, reforçado pelo apelo da primeira Cruzada contra os infiéis em 1095. Sete anos depois, em 1102, uma concessão pontifícia dava os mesmos privilégios àqueles que, em Espanha, combatessem os Muçulmanos.
[Adeline Rucquoi, História Medieval da Península Ibérica, p. 168.]
Até breve.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Proclamação da Guerra Santa para a Península Ibérica.

Foi o papa Alexandre II [1061-1073], um clunicense, quem primeiro [com gritados e incessantes apelos aos ainda incipientes e mal definidos reinos hispânicos] fez acordar e proclamar a necessidade duma guerra santa, e quem, com a ajuda inestimável desta Ordem religiosa, se lançou a conceder indulgências a quem nela participasse. Muitos cavaleiros europeus, sobretudo franceses e alemães, chegaram a Aragão para contribuir para a conquista de Barbastro [1064], confiantes que, nestas empresas guerreiras, as promessas de salvação das suas almas se concretizassem. Era este o espírito que vigorava, verdadeira e conscientemente, em todas as mentes da Idade Média.
[José Manuel Capêlo, Portugal templário, Relação e sucessão dos seus Mestres [1124-1314], A presença templária em Portugal, p. 45.]
Até breve.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Cruzada na Península Ibérica.

Combate entre muçulmanos e cristãos na Península Ibérica.

A noção de cruzada, essa grande aventura da fé, entrou na Península Ibérica [Hespanha] com os freires da Ordem de S. Bento (1). Começa na Catalunha — bem antes que em Leão, Castela, Navarra ou Portugal (2) — com o beneplácito de bispos e abades. Foi o papa Alexandre II [1061-1073], um clunicense, quem primeiro [com gritados e incessantes apelos aos ainda incipientes e mal definidos reinos hispânicos] fez acordar e proclamar a necessidade duma guerra santa, e quem, com a ajuda inestimável desta Ordem religiosa, se lançou a conceder indulgências a quem nela participasse. Muitos cavaleiros europeus, sobretudo franceses e alemães, chegaram a Aragão para contribuir para a conquista de Barbastro [1064], confiantes que, nestas empresas guerreiras, as promessas de salvação das suas almas se concretizassem. Era este o espírito que vigorava, verdadeira e conscientemente, em todas as mentes da Idade Média.
Toledo foi conquistada [1065]
(3) por Fernando I, o magno, sendo nomeado seu primeiro arcebispo, o francês Bernardo, um clunicense, enviado a Castela pelo [4º] abade (S.) Hugo [†1109], sucessor de (S.) Odilón. Entretanto, poucos anos mais tarde [c. 1092], chegam à corte do rei Afonso VI, de Leão e Castela, os condes Raimundo e Henrique da Borgonha.
Por outro lado, o papa Urbano II [1088-1099],
(4) depois do sermão feito no concílio de Clermont [1095], aconselhou os cruzados de toda a Hespanha a que não fossem para a Terra Santa, fazendo menção [e caso!] de que eles tinham a própria cruzada em casa e que não lhes fazia falta nenhuma participarem em igual aventura no Oriente Médio. Chegou mesmo a proibi-los de tal. No entanto, muitos deles, parecendo esquecer a palavra do Sumo Pontífice, demandaram a Palestina.
Desta maneira, diríamos quase simplista — podendo afirmar-se que verdadeiramente imbuída com o espírito de cruzada — começa a Reconquista na Península Ibérica. Não só o exército real e os dos senhores feudais, mas a Igreja em armas, no terreno, eram disso prova.
A guerra contra o Islão toma foros de sagrada com o primeiro cerco de Saragoça [1101] — grande feudo moçarábico da Península — com o rei Pedro I de Aragão [c. 1072-1104], o primeiro monarca hispânico que tomou o nome de rei cruzado. No entanto, este rei teve que abandonar o intento sem conseguir o seu objectivo. Foi só quando seu irmão Afonso I, o batalhador [1073-1134], subiu ao trono [1104], que tal se verificou. Em 1118, depois de reunido o concílio de Tolosa, com religiosos de ambos os lados dos Pirinéus, acordou-se conferir à tomada daquela cidade
(5) o carácter religioso com que se tinha iniciado dezassete anos antes. Assim, a nova campanha deixou de ser apenas aragonesa, desde o momento em que se comprometeram nela cavaleiros e vilãos de todo o território peninsular, diante dos quais marchavam os seus respectivos bispos e muito monges, que deram provas de inaudito arrojo e intervindo activamente nos combates.(6)
[José Manuel Capêlo, Portugal templário, Relação e sucessão dos seus Mestres [1124-1314], A presença templária em Portugal, pp. 45-46.]

Notas do Autor:

(1). — Beneditina ou de Cluny.
(2). — Obviamente que, nesta altura, Portugal não existia como reino.
(3). — Naqueles dias Toledo era a cidade santa da Península, a versão hispânica de Jerusalém. [Juan G. Atienza, Monjes y Monasterios Españoles en la Edad Media, p. 328, Ediciones Temas de Hoy, Madrid, 1994.]
(4). — Foi mais tarde beatificado.
(5). — Foi conquistada a 18 de Fevereiro de 1118.
(6). — Juan G. Atienza, ob. cit., pp. 326-327.


Até breve.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A ideia de Cruzada. (I)

Embora os portugueses e espanhóis de antanho tenham falado muito dos seus piedosos propósitos de cruzados, o pensamento de libertar Jerusalém ou duma cruzada contra os turcos foi, no declinar da Idade Média e também no século XVI, pouco mais do que um constante requisito da diplomacia europeia, uma maneira de falar, da qual podemos deduzir uma intenção de cruzada com tão pouca verosimilhança como hoje o faríamos de facto de uma aviador ter sobrevoado o pólo norte e lançado aí uma cruz abençoada pelo papa. Já então isso era, em grande parte, vinho novo em odres velhos.
[Carl Erdmann, A ideia de Cruzada em Portugal, p. 4.]
Até breve.