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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Preparação para a conquista de Lisboa, em 1147. (IV)

Rei e os seus guerreiros antes da batalha.

A 16 de Junho chegaram ao porto as primeiras naus dos cruzados. O bispo, que logo os visitou, recebera a 15 uma carta do rei dizendo-lhe: Se por ventura arribarem aí os navios dos francos (…) E D. Afonso ordena-lhe que os receba com benignidade, os convide para o assédio e o próprio bispo com outros que o queiram fazer se lhes entreguem como reféns e venham a ter com ele, rei, junto de Lisboa.
No sermão que o bispo D. Pedro pitões prega no dia 17 aos cruzados diz-lhes que D. Afonso
partira, havia já dez dias, com todo o seu exército contra Lisboa. Aguardaram os cruzados o resto da armada; mandam chamar a Braga o arcebispo D. João peculiar; deliberam seguir com os bispos para Lisboa a fim de que ouvissem ali pessoalmente o que o rei lhes mandara dizer; partem a 26 do Porto e chegam ao Tejo na tarde de 28.
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa em 1147, pp. 56-57.]
Até breve.

domingo, 20 de setembro de 2009

Preparação para a conquista de Lisboa, em 1147. (III)

A «Crucesignati anglici epistola de expugnatione olisiponis» confirma, com pequena variante, a afirmação dos dois últimos documentos (1). Depois de descrever a conquista do arrabalde em 1 de Julho bem como as preocupações tomadas durante a noite imediata para garantia da posse definitiva da posição expugnada tão brilhantemente, diz que no dia seguinte de manhã fizeram os Mouros uma inútil surtida e acrescenta:
«
Fechado assim finalmente o cerco à cidade» (…) (2)
Portanto, segundo o cruzado inglês, a efectividade do sítio começou a 2 de Julho.
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa em 1147, p. 51.]

Nota nossa:

(1). — Os dois documentos são: A Epistola Arnulfi ad Milonem episcopum Morinensem e a Epistola Duodechini ad Cunonem Sancti Dysibodi abbatem.

Nota do Autor:

(2). — José Augusto de Oliveira, Conquista de Lisboa aos Mouros, p. 80.
Até breve.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Preparação para a conquista de Lisboa, em 1147. (II)

D. Afonso Henriques.
[escultura de Soares dos Reis.]

A prudência incontestada do nosso primeiro rei, não nos permite supô-lo a convocar os seus homens de armas, a concentrar o seu exército, a onerar o tesouro real com as despesas de tal convocação na contingência de ter de mandar recolher todos aos seus solares e aos seus concelhos, se os cruzados francos não aceitassem o convite a ajudá-lo.
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa em 1147, p. 47.]
Até breve.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Preparação para a conquista de Lisboa, em 1147. (I)

Se os meses de Abril e Maio desse ano os gastou D. Afonso [Henriques] a preparar o exército, de certo não contaria então com o auxílio da armada dos cruzados, a não ser que queiramos atribuir ao fero batalhador medieval o santo privilégio de unir na visão do presente os factos contingentes dum futuro distante. Mas não é preciso cingir a fronte do bravo guerreiro de tantas batalhas, com a auréola da santidade a que Deus revela os arcanos impenetráveis da Providência: para a glória e imortalidade do Homem que foi o açoite dos Mouros, é suficiente o brilho fulgurante da sua espada vitoriosa e a memória da sua longa vida toda consagrada a dar a um povo ansioso de independência os limites duma pátria autónoma onde pudesse livremente dirigir-se e preparar os seus destinos.
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa em 1147, p. 45.]
Até breve.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A cidade de Lisboa em 1147. (III)

Chegava a hora de Lisboa. Azava-se o momento.
Os despatriados escalabitanos haviam-se acolhido apavorados e pobres aos muros da Rainha do Tejo e, aumentando-lhe a população, infundiam-lhe o terror e diminuíam-lhe os recursos. Um cerco em forma, posto que demorado, levaria a render-se pela fome o povo que se apinhasse dentro do círculo de ferro que o terrível filho do conde Henrique fosse tecer em volta dele.
Não julgo ousada temeridade o supor que esta ideia lhe andasse a borbulhar no cérebro e lhe acendesse no coração a chama duma esperança que se apaga e alimenta. Logo em Abril seguinte, ao fazer a doação do domínio eclesiástico de Santarém aos Cavaleiros do Templo deixa transparecer o pensamento que o dominava e absorvia. Diz ele nesse documento:
Mas se por acaso acontecer que algum dia, por sua piedade, me entregue Deus a cidade que se chama Lisboa… (1)
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa em 1147, pp. 39-40.]

Nota do Autor:

(1). — Sed si forte evenerit ut in aliquo tempore mihi Deus sua pietate darte illam civitatem, quae dicitur Ulyxbonam… [Vi. Biblos IX, pág. 558.]
Até breve.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A cidade de Lisboa em 1147. (II)

Era assim Lisboa.
Só era forte duma defesa passiva. Arnufo e Dodequino notaram-no em termos quasi idênticos:
Esta cidade… construída sobre um monte é, pela estrutura admirável das suas muralhas e das suas torres, inexpugnável a forças humana (1).
A sua defesa activa não devia ser grande em relaçãop à quantidade dos habitantes. Observou-o Osberno nas seguintes palavras:
Mas sendo tantos, não tinham armaduras com lança e escudo mais que de quinze mil homens e com estas armas saíam a combater ora uns ora outros, conforme as ordens do seu governador o determinavam.
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa em 1147, p. 35.]

Nota do Autor:

(1). —
As palavras de Dodequino divergem apenas em empregar supra e insuperabilem em vez de super e insuperabilis.
É evidente que a ideia se não altera com as variantes da expressão
.

Até breve.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A cidade de Lisboa em 1147. (I)

Lisboa mourisca.
[Pintura de Jaime Martins Barata.]

Tinha a cidade ares lavados e saudáveis; e para remédio de doenças ou estímulos dos sentidos possuía também as suas termas. Os seus terrenos, bem como os campos adjacentes, podiam comparar-se aos melhores e a nenhuns eram inferiores pela abundância do solo fértil quer se atendesse à produtividade das árvores quer às das vinhas: por isso nada nela será inculto ou estéril porque os seus campos eram bons para toda a cultura. Abundava em todas as mercadorias ou fossem de elevado preço ou de uso corrente. Era rica de olivedo e tão farta de figos que os não pôde consumir todos o exército sitiante. Tinha ouro, prata, ferro; mas tinha sobretudo como atractivo supremo para o sensualismo maometano uma grande liberdade de vida e licença de costumes.
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa em 1147, p. 31.]
Até breve.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Lisboa em 1147.

Lisboa medieval, na altura da conquista de 1147.
Reconstituição de Carlos Alberto Santos.


O âmbito da cidade era o actual castelo, defendido por um muro circular torreado, de cujo exterior partiam lateralmente duas muralhas, que, fazendo volta por nascente, se iam encontrar na orla do Tejo, exactamente à beira da água. A área intermédia devia abranger os actuais bairros de Alfama e Ribeira velha; espaço que mal compreenderíamos como pudesse conter população avultada, se uma testemunha ocular da conquista de Lisboa não nos subministrasse os meios de explicar, ao menos até certo ponto, esse facto. Os edifícios eram por tal modo apinhados que, exceptuando os bazares ou mercados, seria difícil achar uma rua ou passagem que tivesse mais de oito pés de largo. Além disso, em todo o circuito de muros e contíguos a estes havia uam espécie de vastos subúrbios, cujo avesso era talhado a pique, e por tal modo dificultoso de entrar que cada um podia considerar-se como um castelo ou baluarte.
[Alexandre Herculano, História de Portugal, Desde o começo da monarquia até o fim do reinado de Afonso III, Tomo I, Livro II, p. 493.]

Até breve.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Propriedades em Lisboa.

Os bens dos Templários em Lisboa tinham sido confirmados por Bula de Urbano III, em 22 de Maio de 1187, que referia a «casa de Lisboa com todas as suas pertenças» (1), sem especificar de que propriedades se tratava. A inquirição de 1220 assinala, na freguesia de Santiago, umas boas casas com seu curral e outras duas casas, e, em Santo Estêvão, três tendas, lagares de azeite, e parte em casas e lagares de vinho. Nesta freguesia, temos uma notícia anterior, de 1200, de uma casa dos freires do Templo (2).
Nos limites do termo da cidade, os Templários detinham propriedades em Arroios (uma vinha), Lumiar (uma boa granja com dois casais), Malapados, perto de Chelas (vinha), Odivelas (granja com dois moinhos), Trigache (peça de herdade) e em Alpriate (3) (granja com salinas). Referências anteriores conhecidas, só para a vinha da Concha, mencionada em documento de 1197 (4)
[José Manuel Vargas, O património das Ordens Militares em Lisboa, Sintra e Torres Vedras, segundo uma inquirição do reinado de D. Afonso II, Ordens Militares: guerra, religião, poder e cultura — coordenação de Isabel Cristina F. Fernandes —, Vol. 2, p. 111, Edições Colibri/Câmara Municipal de Palmela, Lisboa, 1999.]

Notas do Autor:

(1). — Carl Erdman, Papsturkunden in Portugal, Berlin, 1927, doc. 118.
(2). — Maria Teresa Acabado, Inventário de Compras do Real Mosteiro de S. Vicente de Fora (Cartulário do Séc. XIII), Coimbra, 1969, doc. 53.
(3). — A comenda da Granja de Alpriate, em 1600, foi avaliada em 200 mil réis (Luís de Figeiredo Falcão, Livro em que se contém toda a Fazenda…, ed. 1859).
(4). — Documentos de D. Sancho I (1174-1211), vol. I, 1979, doc. 104.

Até breve.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Lisboa em 1147. (3)

Cerco de Lisboa.
Aguarela de Roque Gameiro.

Lisboa era uma cidade populosa, rica e forte. Edificada à beira dum vasto porto, estava indicada naturalmente como ponto de escala para o comércio entre o Mediterrâneo e o ocidente da Europa. Não é, portanto, de admirar que confluísse a ela grande número de comerciantes e que no seu seio tivessem residência, fixa ou temporária, as mais diversas gentes das mais diversas paragens.
Nos seus edifícios tão apertadamente aglomerados, que a não ser entre as dos comerciantes dificilmente se acharia uma rua com mais de oito pés de largura, adensava-se um povo heterogéneo
.
A sua população — exclama Osberno — era mais numerosa do que se pode imaginar! Com efeito, segundo depois soubemos pelo alcaide, isto é, pelo governador, depois de a termos tomado, teve esta cidade cento e cinquenta e quatro mil homens, exceptuando as mulheres e crianças.
Informa ainda o cronista minucioso e observador:
À nossa chegada tinha a cidade sessenta mil famílias que pagavam tributos, incluídos os dos subúrbios em volta, mas excluídos os homens que não estavam sujeitos à tributação de ninguém.
Era gente humilde que labuta e serve e a classe opulenta que goza e gasta.
A Lisboa afluíam os que tinham sede de prazer, ouro para gastar ou ânsia de lucros nas transacções da veniaga. Eram todos os nobres de Sintra, Almada e Palmela; eram os ricos mercadores de toda a parte da Espanha e da África.
Havia motivos para tanto
.
[José Augusto de Oliveira, O cerco de Lisboa, em 1147. Narrativa do glorioso feito conforme os documentos coevos, pp. 29-30.]
Até breve.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Lisboa em 1147. (2)

Lisboa medieval, na altura da conquista de 1147.
Reconstituição de Carlos Alberto Santos.

(…) o Tejo formava um largo esteiro entre a colina de S. Francisco, a ocidente, e a do Castelo, a nascente: que o espaço ocupado pelo actual «Largo do Município», «Terreiro do Paço», Ruas «do Ouro, Augusta», e «da Prata», era então invadido pelas águas que subiam na enchente até ao Rossio e se difundiam pela Mouraria até o Arco do Marquês do Alegrete.
Era este Arco uma das portas da cerca de D. Fernando e chamava-se primitivamente «de S. Vicente», porque ali atracara a nau que trouxe a Lisboa, o santo corpo do mártir, que ficou sendo o padroeiro da cidade. Isto é prova bem clara de que ali chegavam as águas do rio.
Nesse esteiro desaguava uma ribeira, que descia da actual Avenida da Liberdade e vinha pela Rua Eugénio dos Santos, a lamber o sopé da colina de Sant’Ana: de Arroios vinha uma outra a lançar ali as suas águas, percorrendo o caminho do que é hoje a Rua das Palma
.
[José Augusto de Oliveira, O cerco de Lisboa, em 1147. Narrativa do glorioso feito conforme os documentos coevos, pp. 24-25.]

Até breve.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Lisboa em 1147. (1)

castelo de S. Jorge

O cruzado que escreve a carta de Osb., e que viveu a situação do cerco e conquista de Lisboa neste ano de 1147, dá-nos a lembrança da cidade:
Ao norte do rio está a cidade de Lisboa no alto dum monte arredondado e cujas muralhas, descendo a lanços, chegam até à margem do Tejo, dela separado apenas pelo muro.
E mais à frente:
O alto do monte é cingido duma muralha circular e os muros da cidade descem pela encosta à direita e à esquerda até à margem do rio.
[José Augusto de Oliveira, O Cerco de Lisboa, em 1147. Narrativa do glorioso feito conforme os documentos coevos, p. 18, Ed. Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa, 1938.]

Até breve.